
Ao virar uma esquina no quarto andar do Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova York, deparei-me com a obra “Dogs of Cythera” da artista Dorothea Tanning. De repente, o ritmo da minha visita se transformou — não em calma, mas em uma consequência eletrizante.
Eu havia percorrido o museu quase em corrida — saltos batendo no chão, sentidos à flor da pele — ainda sob a influência das obras de Wilfredo Lam, mas não satisfeito. Era aquela condição familiar do MoMA: o corpo correndo mais rápido que o pensamento, os olhos consumindo imagens antes que o significado pudesse se formar. Sala após sala, a sensação deslizava pela superfície, sem conseguir se ancorar, escapando.
Então, algo curioso se impôs. As obras que me pararam faziam isso antes que a identidade entrasse na equação. Primeiro, o impacto. Depois, a quietude. A autoria, somente depois. Cada vez que olhava para a parede, a descoberta se repetia — não como uma agenda, mas como um fato. As obras que exigiam minha atenção eram todas de artistas mulheres.
Há uma ironia nessa realização, sutil mas inegável, considerando quão recentemente trabalhos desse tipo foram permitidos a uma visibilidade sustentada dentro de instituições dessa escala. A história hesita. A percepção, quando deixada sem estímulos, não hesita.
Então, chegou “Dogs of Cythera”. Essa consequência particular se torna mais aguda quando se faz uma pausa — uma verdadeira pausa — para registrar as condições em que esta artista viveu.
É impressionante reconhecer quão recentemente a autonomia feminina foi condicional: permissões entrelaçadas nas gestos mais simples da vida adulta. Aceitar um emprego. Viajar desacompanhada. Gastar o próprio dinheiro sem justificativa ou intermediário. Até mesmo um cartão de crédito não poderia ser emitido para uma mulher até 1974, uma data próxima o suficiente para abalar qualquer crença de que tais restrições pertencem a um passado selado.
O que emerge não é a indignação, mas um desconforto mais cerebral — a compreensão de que a obediência funcionava como infraestrutura, que o silêncio era confundido com refinamento, que a ambição carregava um traço sutil, mas persistente, de impropriedade. Essas não eram proibições espetaculares, mas regras ambientais, absorvidas e normalizadas pela repetição diária.
O trabalho de Tanning não dramatiza essa realidade. Em vez disso, ela metaboliza e depois libera em uma forma alterada. A pressão dessas condições se torna uma lógica interna, em vez de um tema externo. Suas pinturas pensam através da limitação, em vez de apenas representá-la, convertendo restrições em movimento, recusa em estrutura. O que poderia ter exigido permissão na vida torna-se, em sua obra, uma força indomável — silenciosa, decisiva e sem apelação.
Seus interiores iniciais vibram com consciência. Portas proliferam. Corredores se curvam. Os cômodos se registram como seres sencientes — reguladores. Mulheres ocupam esses espaços não como enigmas ou ornamentos, mas como consciências em meio ao despertar. Ao observar, somos atingidos por uma sensação de desconforto à medida que a elegância cede lugar à contenção e a normalidade se torna adversária. As pinturas retêm resolução e exigem que o espectador permaneça com o desconforto.
Então vem a mudança. Não necessariamente uma mudança estilística — mas uma decisão. No início da década de 1960, sua figuração solta seu controle, pois o corpo, sobrecarregado por séculos, exige liberdade. É aqui que o movimento assume o comando e a tela se torna um evento.
Em 1963, Tanning e seus “Dogs of Cythera” chegam como uma correção. Cythera — o sonho rococó de prazer sem esforço — entra na história da arte ocidental mais notoriamente através de “A Peregrinação a Cythera” de Jean-Antoine Watteau, uma imagem de amantes flutuando por um teatro pastoral de desejo sancionado, onde a feminilidade funcionava como ornamento e o lazer mascarava a autoria. Essa visão — tão fundamental que aparece na capa da publicação que você está segurando — cimentou Cythera como um local de elegância sem consequências.
Tanning não cita essa linhagem; ela a rompe. Onde Watteau se demorou, ela acelera. Os corpos se agitam em vez de passear. Os membros se fragmentam em velocidade. A cor abandona a descrição em favor da propulsão. O que antes era um ídolo se torna um campo de pressão. A beleza, aqui, é conquistada por meio da resistência.
A obra em si não possui nenhum ponto de vista privilegiado. Nenhum olhar controlador. É como se a autoridade se dispersasse pela superfície, obrigando o espectador a se mover com a pintura, em vez de comandá-la. Aqui, a abstração não é um recuo; é uma expansão que sussurra. Mais poigniantemente, o desejo muda de algo imposto às mulheres para algo gerado pelo movimento. Indomado. Sem inibições.
Agora, vista sob essa nova luz, Tanning é menos um capítulo do Surrealismo do que uma recalibração de suas suposições. Ela não anuncia rebelião, mas a realiza — por meio de um movimento que se recusa à estagnação e de uma beleza que retém a submissão. Felizmente, o espectador não é instruído. O espectador é implicado.
Dorothea Tanning compreendeu que a guerra mais eficaz é estrutural, desmantelada de dentro para fora. Sua obra permanece ágil, precisa e perigosa — lembrando-nos quão recentemente a obediência foi exigida, quão deliberadamente o silêncio teve que ser desaprendido e como o poder, uma vez posto em movimento, se mostra quase impossível de ser detido.
“Dogs of Cythera” está em exibição no Museu de Arte Moderna. Para mais informações, visite o site moma.org.
Este artigo foi adaptado a partir de conteúdo publicado originalmente na fonte acima.
