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Proibição de celulares em escolas de Nova York revela dificuldades com relógios

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Proibição de celulares em escolas revela dificuldade de alunos em ler relógios analógicos

Professores de escolas públicas de Nova York dizem que a recente proibição de celulares do uso de celulares em sala de aula trouxe à tona um problema inesperado: muitos adolescentes não sabem ler relógios analógicos. Para Tiana Millen, vice-diretora da Cardozo High School, no Queens, a mudança deixou claro que a leitura do relógio tradicional é uma habilidade cada vez menos comum entre os estudantes. Segundo ela, trata-se de um conhecimento básico que simplesmente deixou de fazer parte da rotina dos jovens, acostumados a consultar o horário apenas pelo celular.

De forma geral, Millen avalia que a proibição dos smartphones tem sido positiva para o ambiente escolar. Os alunos passaram a prestar mais atenção em sala de aula, a socializar mais durante o horário de almoço e a circular pelos corredores com mais agilidade. O número de atrasos também diminuiu, já que menos estudantes caminham distraídos olhando para a tela do celular. O paradoxo, segundo ela, é que muitos chegam na hora certa sem saber exatamente que horas são, justamente por não conseguirem interpretar os relógios espalhados pela escola.

Uma habilidade básica deixada de lado

Há anos, pais e educadores apontam a tecnologia como responsável pela perda de habilidades consideradas essenciais, como a escrita cursiva legível, a concentração prolongada e a leitura de livros inteiros. Embora estudantes demonstrem grande domínio de ferramentas digitais, a proibição estadual do uso de celulares, em vigor desde o início do outono, evidenciou uma lacuna específica: a noção do tempo em relógios analógicos. Professores relataram ao site Gothamist que perguntas como “que horas são?” tornaram-se constantes em sala.

“É frustrante, porque todo mundo quer saber quantos minutos ainda faltam para acabar a aula”, contou Madi Mornhinweg, professora de inglês em uma escola de ensino médio em Manhattan. “Chegou um ponto em que comecei a perguntar: onde está o ponteiro grande e onde está o pequeno?”

De acordo com o Departamento de Educação da cidade, os alunos aprendem a ler relógios analógicos ainda no primeiro e no segundo ano do ensino fundamental. A pasta afirma reconhecer a importância de ensinar tanto o relógio analógico quanto o digital, mesmo em um mundo cada vez mais tecnológico. Conceitos como “em ponto”, “meia hora” e “quinze para” fazem parte do currículo básico das séries iniciais, segundo a secretaria.

O ponto de vista dos estudantes

Do lado de fora da Midwood High School, no Brooklyn, após o fim das aulas, alguns alunos disseram que sabem ler relógios de parede, mas reconhecem que muitos colegas não têm a mesma facilidade. Para Cheyenne Francis, de 14 anos, a dificuldade surgiu porque a habilidade deixou de ser usada no dia a dia. Ela afirma que só encontra problemas quando os relógios da escola estão desregulados, algo que, segundo estudantes, acontece com frequência.

A estudante Farzona Yakuba, de 15 anos, diz que consegue ler o relógio, mas admite que muitas vezes prefere perguntar. Para ela, a falta de prática leva à dependência dos outros. Ainda assim, demonstra empatia com colegas que enfrentam mais dificuldades, especialmente em um ambiente onde os celulares, antes a principal referência de tempo, agora estão fora de alcance.

Impacto da tecnologia e adaptação escolar após a proibição de celulares

Especialistas apontam que a preocupação com a leitura de relógios não é recente. Um estudo realizado em Oklahoma, em 2017, mostrou que apenas uma em cada cinco crianças entre 6 e 12 anos sabia ler corretamente um relógio analógico. No Reino Unido, escolas começaram a substituir relógios tradicionais por digitais já em 2018. Para educadores, mesmo alunos que aprendem a ler relógios cedo acabam perdendo a habilidade por falta de uso contínuo.

Para Travis Malekpour, professor de estudos sociais e matemática na Cardozo High School, a leitura do tempo é uma competência subutilizada. Ele afirma que passou a integrar noções de horário e organização de calendários em aulas de álgebra. Já Kris Perry, diretora do instituto Children and Screens, avalia que a questão não é necessariamente uma “perda cognitiva”, mas possivelmente uma substituição de habilidades, já que os jovens demonstram alto nível de competência digital.

Educadores também ressaltam que, embora muitos alunos tenham dificuldade com relógios analógicos, eles frequentemente dominam tecnologias avançadas. Programas de robótica e codificação são comuns em escolas da cidade, e professores relatam situações em que recorrem aos próprios estudantes para resolver problemas técnicos. Mornhinweg contou que precisou de ajuda dos alunos para abrir um arquivo em PDF após uma atualização de software, em um momento que a fez se sentir “muito velha”, enquanto os estudantes lidavam com a situação com tranquilidade.

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